Brilhavam reluzentes 20 mm de puro aço sobre seu coração rijo, dentro de um peito de parcas lutas; luvas e botas que, de tão rijas, lhe permitiam somente os movimentos necessários, para que lembrasse sobre o quanto os movimentos deveriam ser mais bem calculados, para que não caísse em profundos poços que eram como se se abrissem sob seus pés quando errava os passos e nem erguesse nem mesmo uma pena a assinar tratados exaltados ou sem valor.
Sua valentia agora desbravaria somente locais que houvesse um mínimo de sol. Cansara dos terrenos pantanosos que havia desbravado para tentar matar alguns reles inimigos e conter sua sede de luta, o que, às vezes até revelava-se infrutífera. Sede tal que ele mesmo começava a questionar, pois, tendo lhe sido inculcada essa suposta coragem guerreira, lutava sem saber exatamente, somente para depois poder contar feitos a outros guerreiros.
Havia sim algum gosto, mas na proporção inversa da quantidade de vezes que empunha a espada perante até mesmo sua própria sombra.
Mas, agora, tendo reconhecido o real núcleo de sua vontade, não lutaria com água até a entrar-lhe nas botas, para meramente fincar a espada em três ou cinco mourões briguentos, atacados pela mesma sede irascível e cega. Não quixotearia contra gigantes a girar os braços.
Fitaria de longe grandes pastos. Procuraria um grande esgrimista para que pudesse brigar sobre um fortíssimo sol que lhe torraria o rosto mas sobre o qual, depois, diria: "vim, vi, venci".
Sentia a brisa e percebeu que havia esquecido de viver enquanto lutava.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Armadura
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Alberto K.
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Como sempre fostes
Como se embarcasse num frágil barco para uma guerra de olhos e palavras, tentava relembrar os ensinamentos do velho sábio que era na verdade um reflexo fosco de si mesmo, do qual ele extraía alguns sorrisos e repreensões ambíguas.
Acreditava que os ensinamentos lhe trariam respostas fáceis e que os erros, de grande valor, em realidade, seriam esquecidos como pequenas derrotas, comparáveis a baixas de ignoráveis soldados.
Imaginou consigo: "Veni, vidi, vici". Porém, sua ânsia tremenda, atropelou-lhe os esforços: correra em direção à meta e se expôs demais...
Ao menos, os erros venceram novamente em sua potencialidade didática.
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Alberto K.
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15:59
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
Melodia sem som
Azulava-se em conivência com a felicidade misteriosa que o céu emanava.
Talvez, fosse mero espelhamento de uma estranha alegria, que se materializava num sorriso enebriado de um estranho blues, que um sábado despretensioso revelou como uma pedra preciosa há muito tempo procurada. Sentia uma espécie de confissão nas palavras dela, mas não havia segredos. Cumpria-se cumplicidade, em realidade. Era conivente com o crime de querer e não saber o quê.
Olharam-se: de repente, viu-se desprevenido mergulhando em olhos vastos, compondo uma música sutil, compassada com um sorriso enigmático. Belo e difícil.
Não sabia o que dizer. Vinham palavras à boca e, repensando, eram estranhas.
A beleza do momento talvez fosse o mistério inexpressável de um vazio pleno de significado.
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Alberto K.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Existência culposa
Era pequeno e nocivo. Era pequeno e sujo. Pequeno e doente.
Mas seus olhos inocentes - pois apenas se portava como sempre foi - acompanhavam aqueles seus últimos segundos de ferro, junto a alguns olhos alheios, atentos às pronúncias mudas mas certeiras de rústico carrasco improvisado.
Era almoço e talvez fosse comprar camisas no Brás. Talvez fosse um dia comum, em que se trabalharia, depois se gastaria e se continuaria no pacato ritmo que o esquecimento da dor alheia proporciona para o bem da consciência.
Era pequena e de metal, mas maior que a maldade inocente, a balançar seu pequeno nariz.
Um homem jovem, talvez com uns quarenta anos. Segurava um pedaço de pau e encaixava entre as grades. Talvez fosse um show de rua.
Passantes riam. Riam do que, demônios?
Era meio-dia e também três golpes.
Mesmo que corresse sobre o homem e acabasse com tudo, não seria o dia menos incomum. Mas com que direito que se haveria de escolher que tipo de dia incomum quisera ali ter? Não havia direito nenhum, exceto de compreender suas próprias mãos também em volta do mesmo pescoço golpeado, agora quebrado e frio mas liberto da culpa.
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Alberto K.
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23:30
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Verdadeiro engano
"Enquanto vocês tão trabalhando,
eu tô enrolando.
Enquanto vocês tão dormindo,
eu tô passeando."
Assim entoava o senhor sossegadamente, várias vezes, deitado sob suas palavras que teciam sua loucura, exclamada por risos, soslaios e desdéns supostamente triunfantes.
"Vou deitar porque aí eu não caio. Você vai me derrubar?"
O carretel de linha que tinha nas mãos talvez fosse só a materialização vulgar do seu discurso. Talvez o silêncio que assolasse sua mente - esta sedenta de algum querer, qual fosse - movesse aquelas mãos calejadas a construir o estranho objeto, que portava como um estandarte da sua quixotitude.
Diriam que ele ali se iludia acerca dos moinhos se tornando gigantes: que não houvesse dúvida disso! Mas aquele agir, aquele desencontro consigo mesmo, tinha algo de eternidade... bem diverso da vontade de se tornar uníssono com mudas vozes.
E, cite-se: houve quem percebesse que a dita vitória, a brilhar como ouro, em realidade, após precisos desgastes de ourives meticulosos, treinados mesmo com a lima mais fina do bom-senso, revelava-se apenas fina cobertura sobre uma reles vontade pueril de se manter dentro da normalidade alardeada pela mentalidade de rebanho.
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Alberto K.
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02:05
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