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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Implícito

Há no mundo: o amor e a dor.
(Só se dá outros nomes para o amor e a dor por que eles não são tão pequenos para caber em poucas letras.)
Todas as outras coisas são conseqüências ou são elas mesmas:

Se não se tem amor, buscam-se coisas parecidas para ocupar de novo aquele vazio que fica.
Se não se consegue repôr totalmente, a dor logo vem.

Apesar de que, a dor vira amor, se olharmos bem.

domingo, 28 de novembro de 2010

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sobre qualquer pessoa importante


Tive esperança em algum momento:
num teatro hermético,
divaguei sobre a significação do amor,
para esquecer desse meu jeito sisificado.

Ironicamente,
pensei em falar sobre as vicissitudes,
de modo a não querer encerrar tragicamente:

apesar de tudo, o mesmo há de vir, obviamente.

domingo, 21 de março de 2010

Revisitações do real:
I - Dos clichês, o melhor tema

Milagre

Com tanto que se há de fazer no mundo, (pois a vida é rápida)
quando alguém escolhe outra,
tendo outros tantos bilhões para fazê-lo,
para dedicar-lhe teu zelo,

indiferente das razões,
pois o amor não vive de razões,
neste tamanho milagre, o amor pode surgir,
com dois seres juntos para um maior devir.

Da incompletude do ato, faz-se um espanto:
tem-se um tempo ido, que sempre nos chega;
um tempo gasto, que nunca sobrou e nunca nos falta:

O amor não é completo,
mas nunca deverá o ser.

quinta-feira, 18 de março de 2010

...!

Acalma-te e vela por tuas idéias:
Não te perturbes pela turba inglória,
que se inquieta por disputas frívolas.

Espera o sol raiar na alma
E apenas prestigie os raios puros
Que iluminam a ti mesmo.

Esquece a briga
E busca por ti em ti.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Eolos

Atravessei de uma janela a sul
à uma janela ao norte
como um prenúncio de chuva.
Atravessei algum vago lugar
de alguma saudade,
a sentar calmo à beira do lago.

E atravessei convictamente
como um ser trágico,
que afirma o presente
e apenas sorri ao passado,
sem ressentimento.

Atravesso a vida,
sem transcedência,
para viver de verdade.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Obviedade

Por que você não se retira?

Tokusan estava estudando o Zen com Ryutan.
Uma noite, Tokusan foi a Ryutan
e lhe fez muitas perguntas.

O Instrutor disse:
"Já é tarde da noite.
Por que você não se retira?"

Tokusan inclinou-se
e, ao abrir a cortina para sair,
observou:
"Está muito escuro lá fora."

Ryutan ofereceu-lhe uma vela acesa
para encontrar seu caminho.
Mas logo que Tokusan a recebeu
Ryutan assoprou-a.

Neste momento,
a mente de Tokusan abriu-se.

Texto incrível, que chegou a meu conhecimento por causa da matéria EDF0290 - Práticas escolares, contemporaneidade e processos de subjetivação; agradeço a professora Cintya Regina Ribeiro por uma aula tão produtiva.

Peço desculpas a obviedade (pelas críticas infundadas feitas por mim), pois, esta, quando levada ao extremo, pode surtir primariamente um efeito cômico, para depois causar estranhamento, coisa fundamental para todo ser humano que deseja dar sempre um passo além de si mesmo...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sobre o difícil ato de ser simples

O metalúrgico lembra-se, 5 minutos antes do fim do seu almoço, que a produção deve aumentar: esquece de si e vai produzir. O grande gerente de uma grande empresa lembra-se da última reunião, em que foi mostrado que as políticas atuais devem ser revistas devido a cortes orçamentários, e se esquece que o aniversário de sua filha é hoje. A vendedora, que passa por um artista que exibe seus artefatos, lembra-se de andar um pouco mais rápido por que precisa pedir um aumento para seu chefe, e esquece de olhar para o mundo ao seu redor.

Neste mesmo instante, no meio de toda aquela agitação, podemos perceber seres singulares. Suas existências tem um brilho tão excepcional, mas não daqueles clarões, que nos fazem fugir da luz, e sim de uma tonalidade realmente distoante de todas aquelas luzes artificiais, que nos fazem parar e prestar atenção: o homem que faz um papagaio tirar a sorte no papel, com sua música melancólica; um jovem na Paulista, que munido de um simples violino e seu estojo, discorre sobre Bach e outros grandes nomes; a velha senhora com suas tradições, que observa sem preconceito aos atos loucos dos jovens, pois lembra que teve sua época... são todos eles estrelas em constante morte. Infinitas supernovas.

Isso tudo me fez pensar sobre Virginia Woolf: ela tomava seres simples e buscava a beleza deles.
E tal simplicidade, se existir, ocorrerá nos atos, pois o ser humano é complexo.


...

Podemos ver aquele senhor que, com seu radiozinho de pilha, escuta as velhas músicas de sua infância (tais canções povoadas de rios brilhantes, enquanto observa com olhos de criança o mundo tão mudado, com pessoas querendo ser tanto, mas sendo diferentes de si próprias) e transita num nuliverso todo a parte, em que o tempo agora escorre lentamente, de forma a parecer que um dia inteiro demore uma eternidade e que a morte será apenas um sono bom mandado por Deus.

No mesmo barco, navegando em meio à pressa tempestuosa dos transeuntes a sua volta, vemos a pequena criança que transforma algumas pedrinhas em sua morada imperial, onde, de lá do alto de sua imaginação, comanda o senhor folha de amora para que vigie se não está a tristeza rondando para tomar posse dos seus tesouros de semente de mamona e grãos de feijão...

A simplicidade possui uma beleza rara, sincera e às vezes até difícil, pois muitos leigos a confundem com a ignorância ou com as coisas óbvias.

Ser simples, numa sociedade tão necessitada de coisas desnecessárias, é complexo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Releituras - 2006

Ela é toda sonho.

E, com um jeito simples, mas não rude, se achega na poesia e vai modelando microtexturas tão complexas com ela, que à mesma se funde. Com aqueles olhos cor de café-superado, e um jeito de algodão doce, dissolve seu velho urso de pelúcia naquela poesia também, por que ainda é uma criança que é sol mesmo num dia de chuva, mas que tem medo de calos.

Moça de razão e emoção, mudaras? Tornou-te quem tu és?
Ainda queres voar sem cair?

(Apesar de que, mal consigo te ver daqui, está quase se tornando uma daquelas estrelas que a gente acha que existe, mas que começa a duvidar se apelar somente para a razão dos astrônomos.)

Como bem sabes, a queda não é o fim, como o erro também não é vergonha. Se caíres, nasça de novo! Se te apegares a suavidade das nuvens e ao friozinho aparentemente seguro do céu, é por que deverás cair para recomeçar!

Mude sempre, mas sempre com a loucura dosada insubstituível.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Angústia

O que há de se fazer quando a única coisa que nos importa é uma certeza somente? Com tantas incertezas pelo mundo, a serem desveladas, o que me importa agora é fazer esses violinos com suas notas lacônicas pararem de trazer à tona um passado que não quero mais, mas que me fazem pensar que são o último fôlego numa tempestade solitária!

Eu convivo com quaisquer outras incertezas, mas essa é o sino da angústia:
Onde está dentro de mim?

Está aqui, do lado esquerdo, ou aqui, do lado direito?

Nem eu sei ao certo... quem dirá você saber...
E isso torna a angústia maior do que consigo ver fora da minha sombra...

Será que eu deveria me submeter ao velho processo burocrático do senhor caixa de banco ao dizer "Próximo!" e esquecer da Angústia?

Queria um dia poder te ver com os olhos que eu sempre quis...
O meu fim, em realidade, é não perceber com qual fim apareci na tua bonança...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Manuel Bandeira

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?

A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.

O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aspereza no dizer

Antes havia mais poesia em mim. Hoje, sou um bicho gracilianesco... solto muitas palavras de meio palmo, mas que entram com aspereza nos ouvidos despreparados (e por que deveria alguém preparar os ouvidos para essas coisas?). E tenho sofrido as consequencias disso: por que se me dizem que são gigantes, aqueles com os quais tenho que lutar, nunca chutarei a hipótese de que são moinhos... e lá vou eu a labutar pelo suspiro derradeiro do dito cujo. E é por isso que não sei mais escrever fora de mim, tudo remete a qualquer coisa que eu tenha pensado um dia... a objetividade me cegou com solipsismo (apesar de que, nem eu mesmo pareço com algo que se chame de "verdade")...

Hoje, escrevo poesia que nem uma coisa que se mexe no meio da palha: roda, senta, se acomoda, fuça... mas é basicamente para se aconchegar. Ele não compreende o ato. Só o faz. Eu, não compreendo nada de poesia: só escrevo quando quero me aconchegar, jogo palha pro alto, sinto o cheiro dela... não extravaso a palha, não dissocio-a do vegetal... é tudo como vejo. E se tento ir mais longe... me perco.

Apesar de que, a vida é para se perder mesmo.