A mãe, passeando com o filho, em meio a sua vida feliz, dava risada dos trejeitos do mendigo estirado no chão, tocando sua harmônica. Todos que passavam, riam do mesmo modo. Riam, porém, sem entender a piada.
O homem pobre (e que ainda se tenha consciência suficiente para não se permitir inverter a expressão sem perceber prejuízo poético) ali estirado, foi um dia um desses sorridentes.
Por que, um dia, veio à tona sobre como vendia sua vida, seus últimos minutos.
Largou tudo e foi viver como um asceta urbano.
Ele cumpria seu papel de jogar na cara dos transeuntes que havia algo de errado em tudo aquilo.
Ele sabia que seu grito era mais pronunciado sob trapos e mau-cheiro e sobre sua própria dignidade.
Não que fosse livre, por que, em realidade, nunca se está.
Mas era livre à sua maneira, e não à dos outros.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Escape
Por
Alberto K.
, escrito em
10:01
1 comentários
Marcadores: Nas bordas da moral
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Sobre a morte
Brota do futuro inevitável do pequeno ramo esverdeado, os difamados sem vida.
Refestelam-se sobre a carne inerte que correu como cão amado, os últimos operários.
Prolifera-se sobre a vívida primeira dor, o esquecimento maduro.
De todos nós, que um dia viemos como verbo de felicidade, e partiremos como substantivo pesaroso.
Lembrai: se corre sangue na sua veia pulsante, é porque um dia irás morrer!
Por
Alberto K.
, escrito em
23:45
0
comentários
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Liberdade
Cantava toda manhã, tarde e noite.
Mas para todo lado que ele olhava, a sentença era metálica e fria.
Vivendo.
Por descuido, escapou
e perdido entre o cinza e o verde,
morreu de fome, frio e alegria.
Viveu.
Por
Alberto K.
, escrito em
09:31
0
comentários
Marcadores: filosofia
terça-feira, 12 de abril de 2011
Julgamento parcial
Num suposto monólogo nas obscuras eras da transição das velhas para as novas idéias:
- Elas falecem... sempre...
- Que é que se há de fazer?
- Não sei. Mas é culpa da sutileza das suas existências..
- Mentira. É culpa sua: se não há de ser como quer, as sentencia com seus motivos.
- Mas não é assim que deve ocorrer depois da dor rotineira?
- ...
- Aliás, e o pragmatismo?
- Como?
- Esse negócio de rotineiro... se esquece de que o mundo é o que vemos?
- Hum...
- Ou seja, você está deixando o pragmatismo de lado... rotina? Quem a estabelece é você!
- É, sei que estava só querendo fugir mesmo.
- Pois é. Bom, elas morrem, mas não é culpa de sutileza nenhuma. Você as sentencia. Não se esqueça disso.
- Sim... penso talvez que eu não me importe mesmo que elas faleçam... ainda haverá de vir aquela pela qual eu pense duas vezes antes da sentença?
- Sendo lógico, não há motivo. Mas à parte de tudo, resta a esperança... Quando a lógica e a imaginação não suprem, resta a pequena esperança que sempre está a flutuar nos corações oprimidos...
Por
Alberto K.
, escrito em
01:20
0
comentários
Marcadores: espelho, texto-minuto, tristeza
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Estar-se só
Por que acostumou-se assim.
À beira da sombra ou mesmo ao sol, era criança de brincar só com os próprios primos e irmã.
Nunca jogou bola na escola; aliás, se fosse, era a sina de ser último.
Quando viu-se com alguém, foi só uma vez a dar gostos de recalque freudiano.
E agora, em vez de lutar, convenceu-se piamente... a dor é pior que cachaça, por que nunca passa.
Diz que não está triste...
ver quem gosta, aparentemente feliz em outro amplexo foi consequência lógica basicamente.
Se o mundo é o que se vê, e vê-se só e sem sol, que vontade há para superar isso? Convencer-se se torna bom meio de entender tudo.
Ah... vá tudo para o diabo.
Por
Alberto K.
, escrito em
11:37
2
comentários
Marcadores: espelho, texto-minuto