Foto: sxc.hu

domingo, 7 de novembro de 2010

Microtextura

Há uma parte do mundo que está escrita de forma oculta a certos olhos...

a sensibilidade aos supostos pequenos movimentos desvela a sutil camada que abriga muito do complexo emaranhado de angústias, alegrias, incertezas e tudo aquilo que molda o ser humano, sendo que o próprio desvelamento já era metadesvelamento...

De um ouvido surdo, pelo constante contato com a reificação pragmática, não ouvia-se o passar por cima das vontades, de esquecer do homem e só lembrar das estruturas...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

No caminho do chicote, andam os que nascem para morrer...

Não aceitaria ajuda que lhe largasse sozinho. 

Era um pássaro: tinha asas boas, já era crescido. Não deveria empurrá-lo, por que caíria uma vez só. 

Andava. As chances, havia; acostumado mal: mãe te ajuda, era assim, de todo.
Minhoca, na boca. Água, da chuva ou, de novo, da maneira comum dele.
Divertia-se: como e se mandavam. Tua mãe, tua lei.

Morreu cedo: mais tarde que sua liberdade: envenenada pela mãe.
Nunca voou, mandaram muito.


Poucas palavras, muitos significados.
Explicar demais é matar poesia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Leitura construtiva

"Então, o que aconteceu a um certo Zatesky, da forma descrita por Lurija, aconteceu comigo: tendo perdido parte do cérebro durante a guerra, e com essa parte do cérebro toda a memória e a capacidade de falar, Zatesky, no entanto, era capaz de escrever: assim, sua mão escrevia automaticamente todas as informações que era incapaz de pensar e, passo a passo, reconstruía sua identidade ao ler o que escrevia."

Umberto Eco, em "Interpretação e Superinterpretação", pg. 103

sábado, 23 de outubro de 2010

A-firmação da incompletude

Não era desejado com furor, estando longe de ser um grande galã.
Não era admirado, como grandes gênios.
Não era visto como um ator, de grande plasticidade social.
Não era considerado funcionário do mês, nem pelos clientes e nem pelo seu chefe.
Não era destemido, para que lhe reconhecessem a coragem.

Nunca projetou sua sombra com grandes realizações sobre outras pessoas e nunca foi essencial, a não ser a si mesmo.

Mas ainda assim, estava vivo, e não sendo nada do que foi dito, ainda assim, por saber disso, aceitava, enquanto soubesse que, realmente, aquilo tudo não importava para ser tudo o que era agora e o que queria ser. Não que não pudesse (não se sabe se poderia, a não ser a princípio), mas via que sentir-se incompleto por aquilo tudo é que lhe daria incompletude real.

Aliás, foi na afirmação da negação é que se firmou o modo de afirmar-se.

domingo, 17 de outubro de 2010

Psicanálises: I - Possibilidades

À criança, disse o pai:
- Não faça isso, menino!
E foi lá a criança fazer outras coisas, que não fossem aquela.

Se não se sabe escolher, fica-se perdido.
Mas se uma alternativa não é possível, o resto é, e são muitas.

Um balanceamento entre as possibilidades e as impossibilidades sempre é necessário.