Foto: sxc.hu

domingo, 17 de outubro de 2010

Psicanálises: I - Possibilidades

À criança, disse o pai:
- Não faça isso, menino!
E foi lá a criança fazer outras coisas, que não fossem aquela.

Se não se sabe escolher, fica-se perdido.
Mas se uma alternativa não é possível, o resto é, e são muitas.

Um balanceamento entre as possibilidades e as impossibilidades sempre é necessário.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Auto-didatismo

Estar à deriva na vida, sem se deter em frente aos detalhes das coisas (como estar à frente da Notre Dame, soslaiar e depois continuar a seguir imensos roteiros, num estúpido consumismo), nos faz estar à deriva na vida.

Para aprender, é necessário nos determos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Reencontros

Os seus olhos mareavam.
Era a segunda vez que fazia isso, depois de seus olhos correrem incessantes, ansiosos, aquelas letras rápidas, brilhantes e negras, anunciando o retorno dela... disse ele que não havia chorado muitas vezes na vida...
mas, ela, ela sempre conseguia, mesmo que não que quisesse (e nunca o quis, por que lhe importava era fazer brotar sorrisos)...

mas os olhos mareavam
o coração se abria
o sorriso expandia
a taquicardia florescia sobre teus dedos, ansiando dizer algo...

Um dia, deixou-a ir pelo rio, por que se ressentiu de algo que não houve. E, nas manhãs tristes em que a solidão, incompetentemente, caminhava ao seu lado ou almoçava com ele, montava sempre um álbum mental, com recortes de realidade... o álcool gel, as flores da faculdade, um encontro inesperado na fila do restaurante universitário, uma mensagem, uma ligação...

...mas agora, o peso no peito se extinguiu.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anistia

" ...mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada." - Mateus 12:31

"O que é imperdoável?", ressoava como eco frente ao erro último teu. Enviava a carta esperando que os pequenos e belos olhos seguissem as flores que permearam seus últimos sorrisos.

"Há algo imperdoável?", retomava, enquanto a carta, ao cair, soava com um tom seco, reafirmando que a resposta não viria tão cedo e nem só com aquele ato de pretensa humildade, que faltou no que antecedeu a falha.

"O ódio e a intolerância violenta, a repressão, a ditadura... os homens mortos... quem lhes dará o perdão que os generais devem?", afirmava, enquanto lia a juventude fotografada em mártires, emolduradas em vontades de liberdade de ser; emolduradas no idealismo que acreditavam.

...mas, a raiva, o ódio ou a suposta justiça que haveria se não perdoássemos, realmente existiria, só porque não cederíamos o perdão? A não ser que se acredite que a maldade realmente domina as intenções de quem a praticou, ao invés de considerar-se que todos, sem exceção são frutos do entrelaçamento da mentalidade dominante de época com sua própria experiência de vida, não fará bater o coração dos que se foram, mas somente dos que ficaram numa taquicardia raivosa...

Querer a justiça na forma de não-anistia só faz surgir, no fluxo das águas, pequenos redemoinhos, que logo morrem, como todos dentro do próprio rio...

...e alimenta o ciclo, de ódio.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Remendo

As passadas cartas, banhadas de saudade e de muito arrependimento, ainda flutuam dentro da alma do inexperiente marinheiro dos sentimentos.

Doem ainda, mas agora elas soam um pouco mais opacas: ganharam aquele jeito baço das coisas que atritam muito com a rispidez e insensibilidade do tempo... que, ao lado de novas vontades, de novas veredas misteriosas, exalam um quê de coisa estranha, de coisa até desconhecida...

Não que um dia vá morrer: cada pedaço é mais que célula viva.

Mas...
passa.