Era uma pessoa tímida, que alguma espécie de medo ao contato com o próximo a impedia de realizar seu desejo mais profundo: encontrar sua alma gêmea. Imagem esta já bem formada, de um moço de cavalo e intenções brancas. Um dia ela encontrou um demônio montado num dragão e quis mudá-lo. Ela apanhava todo dia.
De desgosto, morreu cedo.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Sete palmos são sete palmos
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Alberto K.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Tropa ignóbil
O ranço que escorria do pessimismo ignorante se refestelava dentro das suas bocas.
Teus risos unilaterais, monologantes, parecem até justificar o doce gosto que vem dos podres e infestados pensamentos imediatistas, alienados, que insinuam o tom dos clichês que se atribuem aos que se esforçam por não cair na velha conversa da verdade absoluta (Foucalt que o diga!): inocentes, idealistas, extremistas, radicais, "socialistas", "anarquistas" (e muito mais outros movimentos políticos estereotipados pela tacanhez, alheia a compreensão dos processos)... mas, sabe, estes teus chicletes não passam de angústia disfarçada de escudo brilhante.
A sutileza linguística era uma das suas armas: tratavam de diminutivar na mesma proporção do tamanho da sombra que sua soberba fazia pairar sobre os outros. E era assim: não ousasse ninguém captar essa manobra mental, por que senão o manjado discurso da não aceitação de opiniões emergiria.
Claro que, com menos do que o próprio cérebro, não era muito complicado compreender a demanda do pisar alheio: é a velha história de ser a partir do não-ser dos outros.
Será que a escuridão só existe na medida em que não há luz?
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Alberto K.
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12:24
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009
O bêbado
Olhavam com assombro para o pobre embriagado.
Questionou-se sobre onde ele estava... tentei dizer o bairro, como se isso talvez suprisse a pergunta, o que depois percebi que não. Arbitrariou que seu destino era o metrô, estando num ônibus que tinha passado há muito pelo Consolação... o motorista então o instruiu a atravessar para o outro lado de uma rua que não o ia deixar cumprir tal tarefa... desacatando a altivez com que se impunha a velocidade capitalistamente necessária do ônibus, o motorista do coletivo se vestiu com o resto das minhas esperanças que ainda tenho na humanidade, daquelas que vem com um óculos que nem aqueles 3-D, mas que fazem a gente ver que antes de bêbado, estava ali o homem, com um problema que não sabíamos, e se decidiu.
Pousando sublimemente o ônibus, o motorista se ergueu como se brandisse a todos a obrigação de ser humano com os humanos. Guiando o ébrio até o outro lado da rua, deve tê-lo instruído sobre quais ônibus pegar e depois, talvez ainda sentindo o poder de re-humanização que tais tipos de coisas conseguem fazer, pensava alto, inclusive sobre a atitude primeira que havia considerado, que era a de largar o homem naquele estado à sorte da neutralidade de culpa dos carros.
Pensava alto, pedindo perdão talvez. Mal sabia ele que seu ato havia construído o perdão ali, havia construído um dia incomum, que não o seria num dia em que o seu não-ato implicaria no corpo estendido de um bêbado.
Não menos que um sincero aperto de mão este verdadeiro ser humano merece.
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Alberto K.
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17:20
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Marcadores: tristeza
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Ciclo
"Aqui se faz, aqui se paga" era o símbolo no estandarte metafórico da justiça que cortava o sol numa manhã em que um menino raiou estrangulado num beco indigno.
Mas sempre houve um motivo para se dizer que havia algum erro ainda em tais palavras:
tantas ilegalidades, impunes, que fortaleciam o caráter da morosidade da lei, não eram a confirmação de que não havia nenhuma forte luz que provinha da pequena frase?
A fagulha, voando solta, era um incêndio esperando o lugar certo. Caiu no momento em que as pessoas se amontoavam para tomar um mesmo ônibus e não deixavam este sair, apesar de haver um outro igual atrás; formado o incêndio, voou um pedaço e caiu quando um passageiro ligou seu celular com MP3, esperando disseminar sobre seus gostos duvidosos. E mais e mais continuava voando, por semanas, até que veio: era a luz que provinha do estandarte, fenixioso; o mesmo passageiro que ligava o celular, era o mesmo que reclamava que as pessoas ficavam na porta e era também o que reclamava dos políticos roubando: este não percebia que eram todos aqueles atos, atos que emergiam da mesma fonte: o egoísmo sussurava todos os passos mesquinhos que remetiam a alguma espécie de sentimento de auto-sobrevivência urbana que, porém, era em realidade, auto-destrutivo e daninho, por que corroborava a ignorância do outro e nos tornava mais isolados do todo. Algumas vezes, quando se faz, pode-se entrar num ciclo de sofrer, caso este rode devido à força motriz da própria pessoa, que pode o fazer dentro de uma perspectiva de prazer a todo momento.
E se eram todos os passos sujos à base do pisar dos alheios, as pegadas formavam uma nova lei de conduta, que era a lei do somente-eu: eu sou; você que se seja à sua maneira, isto é problema seu.
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Alberto K.
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10:55
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Marcadores: filosofia
sábado, 12 de setembro de 2009
Morte
Não compreendia exatamente o que queriam dizer por "o objetivo da vida é ser feliz" (Havia tempos em que já presenciava a ditadura da felicidade). Fazia seu trabalho honestamente e considerava que era esse seu objetivo, ser bom no que fazia. A felicidade era non-sense na mesma medida em que compreendia perfeitamente que, na verdade, era um trabalho que só alimentava as veias já grossas da burocracia que oprimia os que possuíam menos chaves para atravessar as portas kafkianas da justiça; apesar disso, entendia também que se não fosse ele, outros haveriam de vir e tomar o seu lugar.
Mas ele possuía outro trabalho: "apaziguador de dores imensas" ele se auto-denominava. Mas tal serviço circulava apenas nas bocas sujas das vielas de moços escuros, que anunciavam que a morte era só uma passagem e havia alguém que poderia lhe fornecer o "bilhete" para entrar neste mundo: havia muitas formas, desde cicuta à quase sublimação do conceito de dor num tratamento sem crueldade, feito porém com seriedade. Claro que, de antemão, ele sempre declarava que só cumpria seu papel de "sublimador" das vontades e que a escolha era da pessoa: por isso não cobrava, considerando o ato cumprido pagamento suficiente para sua própria auto-estima.
Para ele, a morte era só mais uma fase da existência.
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Alberto K.
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05:28
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Marcadores: Nas bordas da moral