Foto: sxc.hu

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aspereza no dizer

Antes havia mais poesia em mim. Hoje, sou um bicho gracilianesco... solto muitas palavras de meio palmo, mas que entram com aspereza nos ouvidos despreparados (e por que deveria alguém preparar os ouvidos para essas coisas?). E tenho sofrido as consequencias disso: por que se me dizem que são gigantes, aqueles com os quais tenho que lutar, nunca chutarei a hipótese de que são moinhos... e lá vou eu a labutar pelo suspiro derradeiro do dito cujo. E é por isso que não sei mais escrever fora de mim, tudo remete a qualquer coisa que eu tenha pensado um dia... a objetividade me cegou com solipsismo (apesar de que, nem eu mesmo pareço com algo que se chame de "verdade")...

Hoje, escrevo poesia que nem uma coisa que se mexe no meio da palha: roda, senta, se acomoda, fuça... mas é basicamente para se aconchegar. Ele não compreende o ato. Só o faz. Eu, não compreendo nada de poesia: só escrevo quando quero me aconchegar, jogo palha pro alto, sinto o cheiro dela... não extravaso a palha, não dissocio-a do vegetal... é tudo como vejo. E se tento ir mais longe... me perco.

Apesar de que, a vida é para se perder mesmo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Estabilizando a ignorância

Não sei direito por que, mas me lembrei de uma conversa que tive uma vez: quando me disseram sobre poder ocorrer o fato, no Japão, de alguém estar caído no chão e ninguém querer ajudar, me foi argumentado que as pessoas simplesmente não o fariam porque quem estivesse caído poderia muito bem ser um bêbado... e disso me lembrei sobre o personagem Alexander Delarge: uma sociedade aparentemente estável resolve por a culpa toda no próprio indivíduo problemático ao invés de acusar o sistema ou os métodos do sistema: é bem razoável, do ponto de vista do esforço despendido, já que isso é mais fácil. Considerando que, apesar da crise, o Japão é um país com maior estabilidade financeira, um sistema educacional razoavelmente eficiente e baixos índices de desemprego, costuma-se dizer que ele é um país estável. Só que, se olharmos por outro ponto de vista, é o país com a maior taxa de suicídios no mundo... A estabilidade que se diz existente no Japão desconsidera estas coisas... E por isso, utilizando-se da semântica simplificadora, as pessoas costumam dizer que a estabilidade é sempre boa (ainda mais quando se define isto...) e consequentemente dar as costas para as pessoas que se prestam a falar mal da estabilidade.

Às vezes penso que estou quase atingindo esta estabilidade e que minha mente está estagnando junto... não é a estagnação (ou obtenção de um almejado equilibrio) do bom senso ou algo assim: é aquela estabilidade que não te leva mais para lugar nenhum, que enquanto por si mesma, parece algo bonito já que é simétrico, mas, olhando bem, te faz cada vez mais comum e enevoa a visão para as estruturas, para as coisas mais profundas ou pelo menos mais conectadas umas com as outras... mas eu sei o que se deve fazer: pensar mais, para jogar para longe a névoa.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Numa rua qualquer de Hekinan...

Nas ruas estreitas de Hekinan, um carro quebra o silêncio e a luz de seu farol parte meu quarto de operário, alugado, em um clarão e eu mesmo. Nele, o calor de um aquecedor garante que eu não morra de frio. Só as cobertas não dariam conta. Enquanto não durmo, penso sobre como o silêncio é quebrado por esses carros japoneses. Concluo que o silêncio é o mesmo e os carros, em
realidade também o são. Percebo que o silêncio é quebrado por que ele passa a existir, já que enquanto residente no país que nasci, esse silêncio sempre foi inútil para tentar me chamar a atenção sobre as sutilezas espalhadas debaixo de cada sombra de árvore. Mas, quando você está numa situação destas, em que as pessoas não te compreendem direito e você não consegue se
comunicar com elas, as asas coloridas das moscas brilham ao sol e tudo passa a existir. E depois, quando estou aqui, atrás desta tela, sendo apenas um nome dentro de um link, link este espatifado em um servidor qualquer, lembro até do cheiro das coisas. Então, aí eu vejo, a saudade também é igual: não é bem saudade, é querer estar fora de tudo isto. E estando fora, volto a querer estar dentro. Ainda não é possível, por meios simples, apenas não estar em lugar nenhum: o homem é um bicho que sonha.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

So far from all

De vez em quando, penso na velha idéia (velha na minha cabeça) de que certas coisas não se adianta querer, não se adianta lutar por que são como são e pronto. Não é uma questão de destino mas de que eu não creio que todas as coisas que ocorrem, boas ou más, podem ser controladas por quem sofre as conseqüências do ocorrido. E mesmo assim, sabe quando você imagina que tem afinidade com uma outra pessoa, mas essa te ignora, ou não liga a mínima por qualquer admiração que você tenha por ela? Quando essas coisas ocorrem, esqueço da velha idéia e torço para que ao ignorar tal pessoa, mesmo com o pesar do ato, a outra, atiçada pela curiosidade ou algum motivo que perturbe, volte a conversar com você... de acordo com a idéia, isso seria bem infrutífero se considerássemos que já antes do fato, tal ignoração da sua pessoa fosse inevitável... e ainda assim, sobra a esperança de que sua tentativa funcione... Um curioso misto de racionalidade e emotividade... Ultimamente tenho percebido que a velha idéia se constitui numa resposta sarcástica às horas de tristeza.

(...so far from the Old Idea.)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Estorietas insólitas - Telemarketing

Estava lendo meus e-mails e toca o telefone:
- Alô?
- Alô? Com quem eu falo?
- Alberto.
- Ah, boa tarde, senhor Alberto. O senhor gostaria de um plano de saúde?
- Ah não, na verdade a gente já tem.
- Ah tá. Tenha uma boa tarde então.
- Não, espera aí. Como assim? Você não insistirá pelo menos duas vezes?
- Ora, o senhor não acabou de dizer que tem plano de saúde?
- Sim, mas... não é bem assim. Vocês operadores não têm uma espécie de norma entre vocês?
- Não que eu saiba, senhor.
- Não, espera. Tem alguma coisa errada. O que está acontecendo com as pessoas? Será que até as propagandas via telemarketing estão sendo banalizadas? Onde está o amor às coisas?
- Também não sei responder a isso senhor.
- Olha, vamos fazer o seguinte: eu passo um telefone de um parente meu e daí você liga para ele.
- Não estamos autorizados a fazer isso, senhor.
- Como não?
- Há uma lei que nos impede.
- Ah. E se você ligasse daqui há um mês? Talvez eu tenha largado o meu plano...
- Na verdade, não podemos retornar a ligação a um cliente que já tenha dito não, a não ser depois de três meses.
- Mas que, e desculpe a expressão, diabos de leis são essas que sempre nos impedem de travar diálogos amigáveis entre os outros seres? Bom, então me ligue daqui a três meses.
- Certo.
- Ah, que bom que entramos em algum acordo.
- Sim, senhor. Tenha uma boa tarde.

Obviamente que esta história não é totalmente verdadeira. Só resolvi escrever isso por que achei muito estranho um operador de telemarketing ligar e encerrar a conversa em menos de um minuto, apesar da resposta negativa. Mesmo no caso de bancos, como o banco Itaú, me parece que eles têm um padrão de exigir no máximo duas vezes... bom, pelo menos isso no caso do cartão de crédito deles. Acho que isso deve ter a ver com o fato de eles não estarem correndo atrás de quem não quer as coisas deles... se a pessoa disse que não quer, o banco corre atrás de outra pessoa.