Sempre foi bom e controlado.
Confrontos e perdas? Medo. Não se contrapunha à vida, esperava que ela lhe viesse, como um verso natural de um haiku. Na escola, agredido; na vida amorosa, esquecido; no trabalho, submisso.
Sentia-se mal por isso, mas, era isso que era sua vida, não é mesmo? A menos de um mês de lembrar-se do tempo que tão rápido tudo corrói, pensava sobre a vida, mas, preferia, de repente, ignorar tudo isso. De repente, ignorando, a vida vinha, como nas histórias de borboletas e jardins tão facilmente digeridas por aí.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
O bondoso
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Alberto K.
, escrito em
15:43
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terça-feira, 11 de novembro de 2014
Dissolução
Caminhar na praia
é como percorrer estrofes
porque no auge da alegria
ergue castelos e os habita.
E se espantam-se os olhos
forçosos por não derramarem,
peço, contemplem o finalizar da obra:
aí vem a maré.
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Alberto K.
, escrito em
00:39
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terça-feira, 1 de julho de 2014
Armadura
Brilhavam reluzentes 20 mm de puro aço sobre seu coração rijo, dentro de um peito de parcas lutas; luvas e botas que, de tão rijas, lhe permitiam somente os movimentos necessários, para que lembrasse sobre o quanto os movimentos deveriam ser mais bem calculados, para que não caísse em profundos poços que eram como se se abrissem sob seus pés quando errava os passos e nem erguesse nem mesmo uma pena a assinar tratados exaltados ou sem valor.
Sua valentia agora desbravaria somente locais que houvesse um mínimo de sol. Cansara dos terrenos pantanosos que havia desbravado para tentar matar alguns reles inimigos e conter sua sede de luta, o que, às vezes até revelava-se infrutífera. Sede tal que ele mesmo começava a questionar, pois, tendo lhe sido inculcada essa suposta coragem guerreira, lutava sem saber exatamente, somente para depois poder contar feitos a outros guerreiros.
Havia sim algum gosto, mas na proporção inversa da quantidade de vezes que empunha a espada perante até mesmo sua própria sombra.
Mas, agora, tendo reconhecido o real núcleo de sua vontade, não lutaria com água até a entrar-lhe nas botas, para meramente fincar a espada em três ou cinco mourões briguentos, atacados pela mesma sede irascível e cega. Não quixotearia contra gigantes a girar os braços.
Fitaria de longe grandes pastos. Procuraria um grande esgrimista para que pudesse brigar sobre um fortíssimo sol que lhe torraria o rosto mas sobre o qual, depois, diria: "vim, vi, venci".
Sentia a brisa e percebeu que havia esquecido de viver enquanto lutava.
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Alberto K.
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21:48
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Como sempre fostes
Como se embarcasse num frágil barco para uma guerra de olhos e palavras, tentava relembrar os ensinamentos do velho sábio que era na verdade um reflexo fosco de si mesmo, do qual ele extraía alguns sorrisos e repreensões ambíguas.
Acreditava que os ensinamentos lhe trariam respostas fáceis e que os erros, de grande valor, em realidade, seriam esquecidos como pequenas derrotas, comparáveis a baixas de ignoráveis soldados.
Imaginou consigo: "Veni, vidi, vici". Porém, sua ânsia tremenda, atropelou-lhe os esforços: correra em direção à meta e se expôs demais...
Ao menos, os erros venceram novamente em sua potencialidade didática.
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Alberto K.
, escrito em
15:59
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
Melodia sem som
Azulava-se em conivência com a felicidade misteriosa que o céu emanava.
Talvez, fosse mero espelhamento de uma estranha alegria, que se materializava num sorriso enebriado de um estranho blues, que um sábado despretensioso revelou como uma pedra preciosa há muito tempo procurada. Sentia uma espécie de confissão nas palavras dela, mas não havia segredos. Cumpria-se cumplicidade, em realidade. Era conivente com o crime de querer e não saber o quê.
Olharam-se: de repente, viu-se desprevenido mergulhando em olhos vastos, compondo uma música sutil, compassada com um sorriso enigmático. Belo e difícil.
Não sabia o que dizer. Vinham palavras à boca e, repensando, eram estranhas.
A beleza do momento talvez fosse o mistério inexpressável de um vazio pleno de significado.
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Alberto K.
, escrito em
22:49
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