Foto: sxc.hu

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Verdadeiro engano

"Enquanto vocês tão trabalhando,
eu tô enrolando.
Enquanto vocês tão dormindo,
eu tô passeando."

Assim entoava o senhor sossegadamente, várias vezes, deitado sob suas palavras que teciam sua loucura, exclamada por risos, soslaios e desdéns supostamente triunfantes.

"Vou deitar porque aí eu não caio. Você vai me derrubar?"

O carretel de linha que tinha nas mãos talvez fosse só a materialização vulgar do seu discurso. Talvez o silêncio que assolasse sua mente - esta sedenta de algum querer, qual fosse - movesse aquelas mãos calejadas a construir o estranho objeto, que portava como um estandarte da sua quixotitude.

Diriam que ele ali se iludia acerca dos moinhos se tornando gigantes: que não houvesse dúvida disso! Mas aquele agir, aquele desencontro consigo mesmo, tinha algo de eternidade... bem diverso da vontade de se tornar uníssono com mudas vozes.

E, cite-se: houve quem percebesse que a dita vitória, a brilhar como ouro, em realidade, após precisos desgastes de ourives meticulosos, treinados mesmo com a lima mais fina do bom-senso, revelava-se apenas fina cobertura sobre uma reles vontade pueril de se manter dentro da normalidade alardeada pela mentalidade de rebanho.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fim.

Era como se apagassem as luzes e a última pessoa saísse do auditório... o show, o brilho, a ternura e os movimentos já haviam ficado há tempos num passado que teimava em ser presente... doía-lhe o peito como se tivesse engolido a sua própria estrela, a mais alta do céu... como se suas pontas, que antes tocavam-lhe suave a pele, agora a rasgassem, a cada lembrança, a cada foto, a cada música... tudo agora transmutava em dor através dos seus olhos, ouvidos, mente e peito...

Não que não gostasse mais de estar ali, próximo a luz do sol: adorava... mas agora esse mesmo sol não precisava tanto dele quanto antes... e agora, vinha a noite e seus pesadelos mais terríveis... sozinho na cama,  sentia aquelas palavras sinceras, que soavam como um sino budista, liquefazerem-se em sal vertido num rosto sem graça e ainda maquiado em um dos últimos sorrisos...

Queria entender onde havia errado... pensara em várias causas, mas houve o argumento de que isso aconteceria por causa de um canalha, independente do que se fizesse. Quer dizer, assinou um contrato tácito de felicidade temporária a la Vinícius...

Sua impotência e feiúra agora respondiam por tudo...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sonne


Frágil beleza:
gotas de sol dourando
o entardecer.

(autor desconhecido)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dificuldades

E por ele não falar com ela, foi que ela quis falar com ele...
E por ele não dar atenção a ela, ela quis que ele lhe desse atenção...
...junto com algum mistério inerente aos corações sujos.

E assim vai o mundo, na busca dos inacessíveis.

Vive-se de dificuldades, na medida da capacidade de fluidez da potência dentro de nós.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Poente

Brilhava num resplandecer dourado e alto.

Trajava sonoridades que os olhos degustavam lentamente, como os aromas de fino trato táctil, desejosos de tornarem-se lembranças futuras ao som da meia-noite, enquanto no estar mergulhado na solidão necessária.
Num longo ósculo oblíquo, ostentava as serenatas suaves que emanavam vontade delicada de existência, que nunca se creu realmente. Mas ali, agora, era.

Afrodite possível, se quisesse, teria um coração inocente entrecortado nos seus dedos.
Ele sonha e luta para que os dois sóis se ponham sobre os dois oestes.