Foto: sxc.hu

domingo, 28 de novembro de 2010

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bússola

Nem ele mesmo creu.


Mas foi lá, e acompanhou-a por apenas dez minutos, até sua casa, mesmo tendo viajado duas horas somente para isso, desnorteadamente:
- Vc é doidooooo! - exclamou ela.

Um coração selvagem bateu mais forte.

domingo, 7 de novembro de 2010

Microtextura

Há uma parte do mundo que está escrita de forma oculta a certos olhos...

a sensibilidade aos supostos pequenos movimentos desvela a sutil camada que abriga muito do complexo emaranhado de angústias, alegrias, incertezas e tudo aquilo que molda o ser humano, sendo que o próprio desvelamento já era metadesvelamento...

De um ouvido surdo, pelo constante contato com a reificação pragmática, não ouvia-se o passar por cima das vontades, de esquecer do homem e só lembrar das estruturas...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

No caminho do chicote, andam os que nascem para morrer...

Não aceitaria ajuda que lhe largasse sozinho. 

Era um pássaro: tinha asas boas, já era crescido. Não deveria empurrá-lo, por que caíria uma vez só. 

Andava. As chances, havia; acostumado mal: mãe te ajuda, era assim, de todo.
Minhoca, na boca. Água, da chuva ou, de novo, da maneira comum dele.
Divertia-se: como e se mandavam. Tua mãe, tua lei.

Morreu cedo: mais tarde que sua liberdade: envenenada pela mãe.
Nunca voou, mandaram muito.


Poucas palavras, muitos significados.
Explicar demais é matar poesia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Leitura construtiva

"Então, o que aconteceu a um certo Zatesky, da forma descrita por Lurija, aconteceu comigo: tendo perdido parte do cérebro durante a guerra, e com essa parte do cérebro toda a memória e a capacidade de falar, Zatesky, no entanto, era capaz de escrever: assim, sua mão escrevia automaticamente todas as informações que era incapaz de pensar e, passo a passo, reconstruía sua identidade ao ler o que escrevia."

Umberto Eco, em "Interpretação e Superinterpretação", pg. 103