Foto: sxc.hu

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Reencontros

Os seus olhos mareavam.
Era a segunda vez que fazia isso, depois de seus olhos correrem incessantes, ansiosos, aquelas letras rápidas, brilhantes e negras, anunciando o retorno dela... disse ele que não havia chorado muitas vezes na vida...
mas, ela, ela sempre conseguia, mesmo que não que quisesse (e nunca o quis, por que lhe importava era fazer brotar sorrisos)...

mas os olhos mareavam
o coração se abria
o sorriso expandia
a taquicardia florescia sobre teus dedos, ansiando dizer algo...

Um dia, deixou-a ir pelo rio, por que se ressentiu de algo que não houve. E, nas manhãs tristes em que a solidão, incompetentemente, caminhava ao seu lado ou almoçava com ele, montava sempre um álbum mental, com recortes de realidade... o álcool gel, as flores da faculdade, um encontro inesperado na fila do restaurante universitário, uma mensagem, uma ligação...

...mas agora, o peso no peito se extinguiu.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anistia

" ...mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada." - Mateus 12:31

"O que é imperdoável?", ressoava como eco frente ao erro último teu. Enviava a carta esperando que os pequenos e belos olhos seguissem as flores que permearam seus últimos sorrisos.

"Há algo imperdoável?", retomava, enquanto a carta, ao cair, soava com um tom seco, reafirmando que a resposta não viria tão cedo e nem só com aquele ato de pretensa humildade, que faltou no que antecedeu a falha.

"O ódio e a intolerância violenta, a repressão, a ditadura... os homens mortos... quem lhes dará o perdão que os generais devem?", afirmava, enquanto lia a juventude fotografada em mártires, emolduradas em vontades de liberdade de ser; emolduradas no idealismo que acreditavam.

...mas, a raiva, o ódio ou a suposta justiça que haveria se não perdoássemos, realmente existiria, só porque não cederíamos o perdão? A não ser que se acredite que a maldade realmente domina as intenções de quem a praticou, ao invés de considerar-se que todos, sem exceção são frutos do entrelaçamento da mentalidade dominante de época com sua própria experiência de vida, não fará bater o coração dos que se foram, mas somente dos que ficaram numa taquicardia raivosa...

Querer a justiça na forma de não-anistia só faz surgir, no fluxo das águas, pequenos redemoinhos, que logo morrem, como todos dentro do próprio rio...

...e alimenta o ciclo, de ódio.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Remendo

As passadas cartas, banhadas de saudade e de muito arrependimento, ainda flutuam dentro da alma do inexperiente marinheiro dos sentimentos.

Doem ainda, mas agora elas soam um pouco mais opacas: ganharam aquele jeito baço das coisas que atritam muito com a rispidez e insensibilidade do tempo... que, ao lado de novas vontades, de novas veredas misteriosas, exalam um quê de coisa estranha, de coisa até desconhecida...

Não que um dia vá morrer: cada pedaço é mais que célula viva.

Mas...
passa.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mais do que o necessário

O sapato que está aqui a minha frente, não é o mesmo sapato que está agora, debaixo da minha cama.

À parte de considerações físicas, esses sapatos nunca serão iguais. É quase certo que se considerará que apelos à sua utilidade provavelmente servirão como conclusões primárias acerca do que é um sapato, apesar de, mesmo assim, estarem essas idéias embebidas do forte odor de construções mentais; que o odor é forte decorre desse jeito meio cambaleante de raciocinar.

E se essas afirmações beirando à absurdez (devido, talvez, a desnecessidade disso, dado que saber se há um sapato platônico ou não, nada nos acresce), fossem estendidas à formação dos sujeitos, do universo e idéias mais entranhadas nas nossas mentes, com construção "real" quase um pouco mais que impossível?

Dado que os homens não são sapatos, e, aliás, são mais complexos que estes, por que haveria de existir uma representação abstrata, pré-concebida das construções sociais, que caracterizaria-se como formador de todo o ser humano?

A necessidade, realmente, não cabe...
...me parece.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mães

Há uma certeza: que todo rio desagua na inevitável queda.

À parte de se crer nisso ou não, primeiro se cairá.
No colo da Grande Agiota (que cobra um juro muito alto), lições importantes podem ser tomadas, dessa outra mãe que nunca se sai dos braços e que, ao final do rio, volta-se, cansado, para dormir uma vez só...


Por que, enquanto se corre, ou quando se aventura no rio inevitável, vê-se os mais fracos sendo levados (por que é mais fácil ou por que não lhe há pedras no meio do caminho), inconscientemente, para a obscura queda ao final... e estes, que sucumbem, se constituem talvez num magnífico quadro de visão ampla do rio, como um mapa de onde haverão pedras (que, quanto mais irremovíveis, mais ajudam a manter-se no rio!) e onde a correnteza é muito forte ou se há outros para se unir e ir juntos contra o fluxo temporal. 


Os rostos agônicos que passam por nós involuntariamente, cansados, dizem o quão fortes deve-se ser... 
o rio é invencível... mas a força também é infindável na medida da vontade.


E... antes de querer-se não pagar a dívida (por que não existe essa possibilidade), deve-se aproveitar o melhor possível o empréstimo dado por essas duas mães.