Foto: sxc.hu

segunda-feira, 5 de julho de 2010

No Natal

Ela observava que a lâmina talvez estivesse meio gasta, até meio enferrujada... passou pela tua cabeça que, se o ato não se consumasse de maneira correta, ela ficaria ferida e também doente. Olhava lá fora as luzes piscando, parecendo até que elas estivessem zombando; ela enxergava até uma mensagem, lhe dizendo:

Hoje tu, logo logo passarás
E ninguém, ninguém mesmo, nem ligarás!

E pensava: todo amor, onde estás? Nos casais felizes, que vão de mãos dadas às compras, e imaginam que aquilo tudo nunca vai acabar: que seja infinito enquanto dure? Pois, Andréa, que ama José, que ama Maria, que ama Gunther, que ama Paul, que ama Hilde, no final das contas, se matam de amores, literalmente, ao bailar da fada verde?

Após as considerações do pré-ato, ela voltava a si, imaginando se alguém pararia para te olhar, lacrimejando o finzinho de luz que lhe sobrava, enquanto ainda palpitava... e concluía que, à parte de todo ato de comiseração ensinado pelos padres e pais e sei lá o que fosse, a vida continuaria bela, como também foi ensinado junto com as considerações sobre comiseração, culpa etc. E, ela imaginava como a encontrariam: triste, num quadro quase negro, com uma tantoo em mãos, quase que ainda tremulando, como se esse tipo de ato nunca se consumasse, dado à absurdez de presenciar um rosto meio deformado, mas jovem, pálido como a lua testemunha da cena final.

Trespassou impiedosa a velha poesia em metal todo o ventre: situação enigmática como um ponto final, seguiu mantendo a serenidade, como se a dor física acalmasse toda a dor espiritual que lhe dominava.

A noite caía como sempre.

sábado, 3 de julho de 2010

O barquinho

Era um barco pequeno.

Atravessava mares asiáticos e também, às vezes, alguns rios de águas mornas e leitos decorados com pequenas flores, como que parecendo pintadas após longos anos de trabalho árduo de algum artesão. Apesar disso, este barco vivia por si; nem lhe importavam os mares e os rios, em realidade, mesmo que sua finalidade objetiva fosse, simplesmente, de percorrer estes mesmos mares e rios...

Talvez, atracar à beira de um cais escuro e frio, sendo recolorido pela mescla da luz da lua e d'uma lamparina saudosa para ser retratado por algum pintor ainda lhe trouxesse algum brilho, mas ainda assim, o barco era por si só...

E nem que fosse inventada alguma teleologia para barcos: a não ser que assumissemos que sua finalidade era ser, no máximo que o hermetismo e a abstração permitissem, o protagonista não passaria de um amontoado de tábuas, metais e vidros.

É claro que, há de se convir, se não há portos almejados, basicamente se dirá que não portos para ir, mas apenas a necessidade de navegar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A semente voou (haverá vento que me sopre para ela?)...

Na sacada da janela, podia-se observar as crianças rolando no chão e gritando, como se quisessem perfurar o mistério do futuro que lhes era reservado... em realidade, é claro que não era isso. 

O que se ouvia era o ressonar da tristeza emanada do corpo de um jovem cansado de tanta realidade... ou talvez, o cansaço de não entender, de a todo momento tentar ter em suas mãos a semente de um amor, um grão pequeno e frágil, difícil de ver, de sentir o cheiro... tão minúsculo que a existência deste se colocava a prova em cada momento que se tentava senti-lo. Que ele cresceria e se espalharia pelo corpo, pelas mãos, pelos olhos e atravessaria o sorriso depois de grande, isso era verdade... mas enquanto crescia, era sempre pequeno, pequeno demais para que alguma força fosse suficiente para lhe pegarmos na mão e não quebrarmos...

Apesar de que, às vezes, enquanto ele cresce, há de se tomar cuidado com o menor vento... não se deve correr com ela em mãos!... a sua leveza inicial facilmente transladaria qualquer tipo de enraizamento... por que cada amor tem seu tempo para se entranhar na terra...

E, depois que ela voa, não há muito mais o que fazer... a não ser procurar outra semente.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Legado

Com o seu falecimento hoje às 2 da manhã,

decretou-se o tempo inexistente.
decretou-se, no fundo da minha alma, que, apesar das diferenças, passou como aquele que, por algum momento, apoiou-se à beira da correnteza inevitável e invencível, e pode vislumbrar o rio de outra maneira, e que, por muita sorte, me chamou enquanto à mesma beira para mirar o rio.

Brilhou e ofuscou minha visão. Visão nascida míope, fisicamente por ascendentes, inevitavelmente por existir.
Ofuscou e me fez relembrar que a miopia descendida é uma banalidade genética e corrige-se de modo igualmente banal. Fez-me relembrar que a miopia da existência, não se corrige, mas se faz da mesma maneira quando não conseguimos corrigir a superficialidade física: estreitamos os olhos, olhamos para um ponto, fixamos bem nele, paramos detidamente, tentando ultrapassar a dificuldade de ver usando da imaginação e do raciocínio... ou então, chegamos cada vez mais perto dele, e, agindo como uma criança, olhamos por muito tempo, cheiramos, viramos, jogamos e o que mais for necessário para o objeto se curvar à petulância infantil da qual nos dotamos.

Apesar das diferenças, ele veio e ficou. Acima das futilidades de lembrar de sua aparência, status social ou qualquer outra tolice deste gênero, ficou o seu jeito de fugir da miopia, de apoiar-se à margem da correnteza e dizer:

"Apesar de tudo, acho que estamos um pouco mais perto do começo do rio do que os que se deixaram arrastar."

domingo, 2 de maio de 2010

Desilusões: IV - Crepúsculo da vontade

Era um rapaz com 26 anos. Pretensões de querer de alguma forma mudar as pessoas permeavam boa parte das suas idéias: desejava que as pessoas se educassem, para que elas mesmas buscassem resolver seus problemas sem precisar da mão estendida a oferecer a ajuda fundamental, tanto para resolver quanto para minar cada vez mais as chances de crescimento daquele que se ajudaria através da rancificação da vontade própria do mesmo.

Mas, talvez, as idéias, com o tempo, começariam a soar opacas e amareladas, quase se fundindo ao fundo da gaveta e àquelas lembranças vagas, com cheiro de grama da infância... Agora, provavelmente, ainda haja um reluzir, como um velho relógio que tenha parado, mas que talvez, seja boa parte de um passado coerente e nada mais que isso...

Parece que não só as células que se degeneraram, mas também a esperança. Quiçá haverá de vir a próxima geração para soprar o pó acumulado por comodidade sobre as esperanças, para bradar o estandarte da vida e tentar amanhecer a geração anterior para novas idéias e novas esperanças.