Foto: sxc.hu

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A semente voou (haverá vento que me sopre para ela?)...

Na sacada da janela, podia-se observar as crianças rolando no chão e gritando, como se quisessem perfurar o mistério do futuro que lhes era reservado... em realidade, é claro que não era isso. 

O que se ouvia era o ressonar da tristeza emanada do corpo de um jovem cansado de tanta realidade... ou talvez, o cansaço de não entender, de a todo momento tentar ter em suas mãos a semente de um amor, um grão pequeno e frágil, difícil de ver, de sentir o cheiro... tão minúsculo que a existência deste se colocava a prova em cada momento que se tentava senti-lo. Que ele cresceria e se espalharia pelo corpo, pelas mãos, pelos olhos e atravessaria o sorriso depois de grande, isso era verdade... mas enquanto crescia, era sempre pequeno, pequeno demais para que alguma força fosse suficiente para lhe pegarmos na mão e não quebrarmos...

Apesar de que, às vezes, enquanto ele cresce, há de se tomar cuidado com o menor vento... não se deve correr com ela em mãos!... a sua leveza inicial facilmente transladaria qualquer tipo de enraizamento... por que cada amor tem seu tempo para se entranhar na terra...

E, depois que ela voa, não há muito mais o que fazer... a não ser procurar outra semente.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Legado

Com o seu falecimento hoje às 2 da manhã,

decretou-se o tempo inexistente.
decretou-se, no fundo da minha alma, que, apesar das diferenças, passou como aquele que, por algum momento, apoiou-se à beira da correnteza inevitável e invencível, e pode vislumbrar o rio de outra maneira, e que, por muita sorte, me chamou enquanto à mesma beira para mirar o rio.

Brilhou e ofuscou minha visão. Visão nascida míope, fisicamente por ascendentes, inevitavelmente por existir.
Ofuscou e me fez relembrar que a miopia descendida é uma banalidade genética e corrige-se de modo igualmente banal. Fez-me relembrar que a miopia da existência, não se corrige, mas se faz da mesma maneira quando não conseguimos corrigir a superficialidade física: estreitamos os olhos, olhamos para um ponto, fixamos bem nele, paramos detidamente, tentando ultrapassar a dificuldade de ver usando da imaginação e do raciocínio... ou então, chegamos cada vez mais perto dele, e, agindo como uma criança, olhamos por muito tempo, cheiramos, viramos, jogamos e o que mais for necessário para o objeto se curvar à petulância infantil da qual nos dotamos.

Apesar das diferenças, ele veio e ficou. Acima das futilidades de lembrar de sua aparência, status social ou qualquer outra tolice deste gênero, ficou o seu jeito de fugir da miopia, de apoiar-se à margem da correnteza e dizer:

"Apesar de tudo, acho que estamos um pouco mais perto do começo do rio do que os que se deixaram arrastar."

domingo, 2 de maio de 2010

Desilusões: IV - Crepúsculo da vontade

Era um rapaz com 26 anos. Pretensões de querer de alguma forma mudar as pessoas permeavam boa parte das suas idéias: desejava que as pessoas se educassem, para que elas mesmas buscassem resolver seus problemas sem precisar da mão estendida a oferecer a ajuda fundamental, tanto para resolver quanto para minar cada vez mais as chances de crescimento daquele que se ajudaria através da rancificação da vontade própria do mesmo.

Mas, talvez, as idéias, com o tempo, começariam a soar opacas e amareladas, quase se fundindo ao fundo da gaveta e àquelas lembranças vagas, com cheiro de grama da infância... Agora, provavelmente, ainda haja um reluzir, como um velho relógio que tenha parado, mas que talvez, seja boa parte de um passado coerente e nada mais que isso...

Parece que não só as células que se degeneraram, mas também a esperança. Quiçá haverá de vir a próxima geração para soprar o pó acumulado por comodidade sobre as esperanças, para bradar o estandarte da vida e tentar amanhecer a geração anterior para novas idéias e novas esperanças.

domingo, 25 de abril de 2010

Irreal, surreal, transreal

Não se ocupe de correr atrás da realidade, pois é como correr atrás de fantasmas.

É claro que talvez surja então a vontade dizer que há é só alienação de filhotes de burgueses preocupados com a rotação das coisas em torno de si... mas e o que os não-filhos de burgueses diriam sobre a realidade? Que não seria menos que realidade a real dor de não ser considerado digno a ponto de não ter o que comer? Que seria não menos que real a realidade de trabalhar duro para ganhar pouco?

...sentimentalmente belo, mas objetivamente inócuo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sobre o silêncio

Abrem a boca para alardear os velhos clichetes, que julgam ser bonitos ou conter algum segredo do universo. 

Em si, são hermetismos ocos, como uma bola de ouro, de camada muito fina. A distância, reluz, ofusca, supreende e atrai. 

Os olhos menos míopes e mais rapinosos estralhaçam tais esferas brilhantes com garras racionalmente menos frágeis.
Mas antes de se lançarem, sozinhas, no penhasco, há o silêncio e a observação, sempre.