Não velo meus mortos.
Procuro mirar a forçosa serenidade, de modo a encerrar a dolorida porém necessária face de um passado às vezes mais saudoso, mais bonito ou menos angustiante ou estranho.
Era uma pessoa comum. À parte de considerações woolfianas, era comum o suficiente para não arriscar em um vôo linguístico maior do que me pareceu exatamente acertado. Mas, deve-se citar sua enorme serenidade quase que anti-materialista, que longe de ser taxada como ignorância, relevava os erros da sua prostituta mulher, que torrava as economias dele com outro homem: ela era mãe de um filho teu, pequeno ser que ele depositava o resto das esperanças destroçadas.
O significado do seu nome remetia a "homem da primavera". Sem nada como destino, mas simplesmente como metáfora conclusiva brilhante, assim foi a sua vida: cresceu, floresceu, morreu. Assim o fez de modo tão natural, que era ele mesmo a própria primavera.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Tristeza contida
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Alberto K.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Sobre estar sob a existência
Era jovem e triste.
Exponha seus sentimentos, disseram-lhe: Mãe, pai amo vocês!
As não-ressonâncias trituraram-na: está louca, não sabe o que diz.
E lá no alto, jogou-se à alguma pretensa vida na visão de todas as janelas.
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Alberto K.
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08:36
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Escrever...!
Um ruído arranhava o resto de zunido zincoso e zeugmático da escuridão noturna, com a permissão etílica dos anfitriões da noite.
Volto para a cadeira e continuo a soletrar expressões metalinguísticas como esta, à espera da conclusão em forma de texto sereno, originado da torrente de idéias picotadas e molhadas que andavam à se apoiar nos verbos e substantivos soltos que boiavam nas horas preguiçosas com tempo de sobra.
Ocorre-me então de tentar dar um porquê de metaforizar, dado que a metalinguística sucumbiu perante a coesão. Inicialmente, introduzo o debate apontando a possível pedância do ato e continuando o mesmo com a hipótese de que há aqui um lirismo necessário. Complementando a idéia lírica com a amplitude da significação poética, considero que havia era uma luta contra a ditadura semântica, contra o autoritarismo da objetividade pura e simples: por que, se é sobre as dificuldades que se molda a capacidade, por que é que os belos textos se moldariam em cima de alguns poucos significados? Não que houvesse infinitos, por que isso é hipótese descabida, mas mais que um, se houvesse beleza.
Valho-me ainda, se minha referência o permite, da frase: "Sua força deve ser pública e seus medos, privados. Compartilhe seus sorrisos, chore na solidão.". O significado disso textualmente me é: escrever é algo necessário para mim... mas não devo sair por aí alardeando desesperos... então, resta o deslocamento da significação para o plano da multiplicidade, de modo que o verdadeiro sentido se oculte... que seja hermético mesmo. Dirão: "Mas não interpretarão da maneira correta!" E responderei: "Tomara! Já o disse, escrever é necessário, mas não o é tomarem o desespero para si.". Se retrucassem "E se desvendarem?", diria eu: "Quer dizer que me meterei a Dédalo de novo...!"
A angústia e o escrever são inevitáveis, mas deve se evitar totalmente o desespero.
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Alberto K.
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18:19
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Infinita beleza da finitude
- "Mããããe, pega a borboleta para mim", exclamou a criança, como se anunciasse a pré-beleza rudimentar da borboleta fora do recipiente de vidro, que quase deixava ela escapar.
Havia beleza por vir ainda, tanto na borboleta quanto na criança e na estrutura geral dos processos.
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Alberto K.
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12:16
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Marionete de barro
Sendo uma pessoa de muitas pretensões, não poderia faltar a característica de criar universos e neles colocar seres com mesmas características que a dos seres humanos, por exemplo, como a incredulidade. Não ocorreu a falta, obviamente, de moldar uma entidade que seria considerada superior e que, de acordo com estes seres, eles deveriam exercer culto, devido ao caráter criativo da mesma. Neste universo criado, foi imaginado também que o Artesão (nome dado pela civilização imaginária, conotando a maneira como os pequenos seres imaginavam o processo de criação e como eles se consideravam perante a sua entidade-mor), num momento de reflexão, criou seres que tinham de média a severa deficiência motora, mental ou sensitiva. Os que presenciavam o suposto sofrimento de tais seres, questionavam-se sobre a existência de infelizes que eram considerados abaixo da imagem do barro primordial, do Artesão. Alguns diziam que a aceitação deles era imprescindível, apesar de tudo, pois eram filhos d'Ele. Outros, na mesma linha de raciocínio, mudando somente a direção, afirmavam que a existência do sofrimento das "vítimas" do afamado ser superior não era menos do que a prova derradeira da inexistência de tal entidade, pois não deveria se esperar que nele houvesse uma resposta melhor do que essa?
Uma risada sutil esculpiu-se num rosto dúbio. Talvez tenha conseguido o que queria.
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Alberto K.
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11:11
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