Foto: sxc.hu

terça-feira, 9 de junho de 2009

Pragmatismo

Os alucinados, em frente à caixa fetichista, se deliciam com todo dramalhão e alegria que ela emana. Deliciam-se com algum tipo de pressuposta superioridade, por causa de alguma escolha banal, por que uma roupa tem uma etiqueta que indica status, por que ele é chauvinista (mesmo cometendo inúmeros atos anti-nacionalistas), por que ele tem o carro que ele sabe que corre a 220 Km/h (mas que ele não pode usar nessa velocidade), por que ele tem 1000 livros em sua estante (e não leu inteiro 100 e nem entendeu 50, sendo que metade dos 50 são livros ruins) ou porque seu corpo lembra o ideal espartano (apesar de sua cabeça estar no outro oposto do ideal ateniense). Eles conhecem a vida de todos os artistas ou esportistas e sonham em casar com um deles (mesmo sabendo que esses artistas não os conhecem e nem fazem questão de conhecer).

Tudo é fetiche: tudo é sonho, a fuga da realidade é mais viável que tomá-la de frente, do ponto de vista da alegria imediata. Por que a alegria tem que ser agora, temos que ser felizes!!! A tristeza só vale a pena se for para vender remédios anti-depressivos, livros de auto-ajuda e entretenimento barato.

"Como? Você não é feliz? Ligue já para este número e...!"

Não!
Silencie essas vozes!
Desligue a TV ou seu rádio e olhe pela janela com seus olhos.

Lá fora, o mundo é bem maior do que este monte de conceitos deformados, que tem como teoremas a sua alienação cíclica e te fazem querer preencher sua vazieza existencial com produtos e comida. Que importa se sua camisa é menos branca que a do vizinho? Será que só se demonstra afeto com presentes?

Pense o que você quiser.
Repense o que querem que você pense.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Rotina burra

Acho que a rotina do serviço está me emburrecendo. Não tenho mais tempo de pegar num livro de verdade e me instruir... até aqueles momentos de reflexão, em que me perdia tanto que às vezes tinha que olhar novamente à janela do ônibus para ter certeza de que não havia chegado a meu destino, não os tenho presenciado muito.
É, isso é triste.
Lembro de quando era mais novo, em que ia nas bibliotecas próximas, pegar algum livro falando sobre o materialismo, algum outro falando sobre histórias medievais... eu lia, e de certa forma, absorvia. Hoje, se nem tenho parado para ler, imagine para absorver quando leio... Isso puxa o que uma vez li, de algum grego (sempre eles!), que dizia que não compreendia como alguém poderia ler mais que cem livros em toda sua vida. E, lembro também, que isso era adjuntado com o que disse Descartes: quem viaja muito em terras alheias, se torna estrangeiro em sua própria terra. Mas, claro, o pouco que leio talvez esteja bem abaixo do que pensava aquele grego ou Descartes.
Foi só um desabafo mesmo.
Compreendo que não é só não ler que é problema. É falta de usar o cérebro de verdade.

sábado, 16 de maio de 2009

Inusitação

Passados 13 anos (sim, 13 anos!) eis que revejo o quase porquinho-da-Índia num ponto frio e qualquer da Paulista. O curioso é que isso se sucedeu no campo das impossibilidades: multiplique a impossibilidade de se praticar um reencontro com uma pessoa que você nunca teve contato e não conhece nada sobre sua vida (bom, descobri, na verdade, que no último ano ela mudou de escola), pela impossibilidade de encontrar no mesmo horário e, ainda, esperarmos que ocorra dessa pessoa perder o ônibus, no ponto em que você observaria estupefato... altamente improvável!

Eis que pulamos para a cena seguinte: está o indivíduo agora disposto a saber se essa possibilidade remota ocorreu! Antes de mais nada, mune-se da certeza dessa impossibilidade do acontecimento e fica pasmo. Logo depois (umas 10 paradas depois, que passaram voando), veste sua teoria de jogos sem derrota, só para saciar sua curiosidade esfaimada. Começa a partida:

- Oi, posso fazer uma pergunta estranha?
- Pode...
- Seu nome é Isabella?
- Sim... você me conhece?
- Ahn... você estudou no Luiz Gonzaga, não foi?
- Foi, mas faz muito tempo; foi em 2000.
- Hum, você lembra de um japonesinho que ficou te olhando, olhando, olhando e olhando?
- Não...
- Ah, então, era eu...

Depois pensei comigo: sim, uma partida sem derrota, foi o que aconteceu aqui! O que eu ganhei? Inusitação! Isso!

Se em um jogo não se pode perder, por que não jogar?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A imbecilidade do anti-governismo de alguns moleques ou sobre "Por que o papai e a mamãe do deficiente não o levam de carro?"

Vou contar sobre uma frase que, por falta de fones, acabei interceptando (seria bom que eu não tivesse ouvido. Só constatei como a alienação e a falta de bom-senso estão espalhadas por aí.)

- Eu acho uma hipocrisia do governo colocar esses bancos para deficientes nos ônibus. Isso é coisa para inglês ver. Eles deveriam dar carros para os deficientes.

Vou "contra-argumentar" (se pelo menos essa bobagem dita anteriormente se constituísse como um argumento, eu poderia tirar as aspas.):

1 - O governo NÃO deve incentivar o uso de transporte rodoviário. Isso por que geram custos maiores que dos outros tipos de transportes, com rodovias, acidentes que ocorrem devido à tais vias, poluição de todo o tipo e congestionamentos.

2 - O governo gastaria só com o carro? É claro que não. Quem pagaria o IPVA? Quem pagaria o seguro? E a manutenção? E os estacionamentos? E se o deficiente não tivesse condições de pagar nenhum desses?

3 - E se o deficiente não quisesse andar de carro? É escolha dele, não é? É DEVER do Estado fornecer transporte público.

Fora isso, me faz lembrar de uma mulher que reclamou que esses ônibus com assentos para deficientes são inúteis, por que ela nunca via sendo usados... ainda bem, né, minha senhora... senão estaríamos tendo um verdadeiro surto de poliomielite ou coisa do gênero... Detalhe: eu vi umas três pessoas com algum tipo de deficiência, durante todas as viagens de ônibus que fiz, desde o começo do ano passado e só 2 dessas usaram o lugar reservado, por que uma delas se viu obrigada a tomar um ônibus sem tal acessibilidade.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aspereza no dizer

Antes havia mais poesia em mim. Hoje, sou um bicho gracilianesco... solto muitas palavras de meio palmo, mas que entram com aspereza nos ouvidos despreparados (e por que deveria alguém preparar os ouvidos para essas coisas?). E tenho sofrido as consequencias disso: por que se me dizem que são gigantes, aqueles com os quais tenho que lutar, nunca chutarei a hipótese de que são moinhos... e lá vou eu a labutar pelo suspiro derradeiro do dito cujo. E é por isso que não sei mais escrever fora de mim, tudo remete a qualquer coisa que eu tenha pensado um dia... a objetividade me cegou com solipsismo (apesar de que, nem eu mesmo pareço com algo que se chame de "verdade")...

Hoje, escrevo poesia que nem uma coisa que se mexe no meio da palha: roda, senta, se acomoda, fuça... mas é basicamente para se aconchegar. Ele não compreende o ato. Só o faz. Eu, não compreendo nada de poesia: só escrevo quando quero me aconchegar, jogo palha pro alto, sinto o cheiro dela... não extravaso a palha, não dissocio-a do vegetal... é tudo como vejo. E se tento ir mais longe... me perco.

Apesar de que, a vida é para se perder mesmo.